Vamos Pensar?

 Filhos – Reflexo dos Pais

O desejo de muitos pais referente a seus filhos, é quase sempre o mesmo. Crianças bem educadas, que sejam tranqüilas, colaboradoras, que conheçam e pratiquem virtudes, que preencham os requisitos de bom aluno, etc. Porém, a dúvida está exatamente em como educá-los para tanto.

Desde o nascimento, a criança é inserida em uma família com a qual aprende as primeiras lições. E muito do que é aprendido nesta fase, perdura por toda a vida. Em seguida, acontece o contato com a sociedade de um modo geral: vizinhança, escolas, parques, igrejas, entre outros que colaboram para as aprendizagens e experiências, e que também podem influenciar no comportamento da criança. Entretanto, sua base primária é a família, e partindo deste princípio, para os pais obterem a mudança dos filhos, muitas vezes precisam mudar seus próprios comportamentos, isso porque, as crianças aprendem e reproduzem os pensamentos e as ações que estão acostumadas a presenciar.

Segundo o filósofo Rousseau, nascemos fracos, precisamos de força; nascemos carentes de tudo, precisamos de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo o que não temos ao nascer e de que precisamos quando grandes, nos é dado pela educação.Em outras palavras, podemos dizer que o homem nasce e passa por um processo de desenvolvimento de capacidades física, intelectual e moral.

Um fator de grande valia é que experiências devem preceder conceitos. Ou seja, os pais que desejam filhos bem educados, colaboradores, bem humorados, corajosos, etc, precisam ter esses conteúdos bem claros dentro de si próprios, para que os filhos possam aprender. E, sendo assim, a primeiro tarefa dos pais é conhecerem seus sentimentos, suas emoções, seus comportamentos, o que inclui perceber seu tom de voz e suas expressões, pois tudo isso pode afetar o comportamento da criança.

Ao fazerem esta auto-observação, os pais poderão encontrar pensamentos e comportamentos que não gostam, todavia, tudo o que se aprende em algum momento poderá ser mudado mediante a novas aprendizagens. É claro que a mudança pode gerar insegurança, ansiedade, pode até mesmo ser geradora de dor. Mas quando aparece a oportunidade de fazer diferente, de tentar algo novo, você só saberá o resultado se praticar.

Nos atendimentos realizados na clínica de Psicologia, quase sempre nos deparamos com pais desesperados, que sentem dificuldade na relação com os filhos. Analisando, percebemos falas e comportamentos automatizados, que geram conflitos e desconforto para toda a família. A comunicação é um meio importantíssimo para se chegar ao outro. Nos comunicamos de forma direta e indireta, e muitas vezes nem percebemos que estamos nos comunicando. Assim, para que o outro entenda exatamente o que se deseja, fica clara a importância de aprender sobre comunicação. E esta, sendo utilizada de maneira construtiva e efetiva, poderá ser um instrumento facilitador na relação diária entre pais e filhos.

Quando cito comunicação, não me refiro a horas de conversa, muito pelo contrário. Ouvir seu filho com toda atenção, por exemplo, reconhecer seus sentimentos dizendo apenas: Oh! Hum! Sei! Já é o suficiente na maioria dos casos. Não se deve subestimar a inteligência das crianças, elas mesmas conseguem encontrar saídas para seus problemas; se os pais deixarem.

Vejamos um exemplo: o filho pode chegar em casa da escola dizendo ter apanhado de um menino mais velho. Pronto! Já é motivo para o desespero dos pais que vêem em seu filho, um menino pequeno, indefeso e que certamente acabará saindo muito machucado se a situação continuar. É comum os pais protegerem os filhos, mas o excesso de proteção não é saudável. Em algum momento de sua vida, a criança sairá para o mundo e precisa estar preparada para lutar, almejar, sonhar, lidar com frustrações, assim como com realizações. Desta forma, é importante que os pais dêem liberdade para que seus filhos possam explorar e experimentarem o mundo.

Lembre-se, é importante não subestimar a capacidade de resolução de seu filho, ouça-o primeiro. Utilize apenas as expressões citadas acima, hum! Sei! Olhe-o atentamente, mostrando interesse no que ele está verbalizando. No caso de pais que fazem perguntas, que culpam o filho, e que apenas dão conselhos, acabam por criarem dificuldades para a criança, que não consegue pensar de forma clara ou construtiva.  Se a criança for ouvida com atenção e de forma que fique tranquila, poderá verbalizar as soluções que esteve pensando. Por exemplo: diz que arrumou um amigo maior para ajuda-lo se for preciso, e que também já pensou na possibilidade de contar o acontecimento a coordenadora, mas vai deixar para o último caso.

Se os pais tivessem verbalizado todas as providências que tomariam, expressado seu nervosismo, sua angústia, etc, etc, teria tirado a chance da criança explorar seus próprios pensamentos e sentimentos, assim como elaborar suas próprias soluções.

Há casos em que crianças são superprotegidas e acabam por tornarem-se adolescentes dependentes dos pais, que nesse momento, acreditam que seu filho não é um adolescente “normal”. Isso porque não sai, não viaja, não namora, não tem amigos, não consegue procurar emprego e conseqüentemente o encaminham para psicoterapia. Quando adultos, temos que resolver problemas, dos mais simples aos mais complicados; seja na escola, no trabalho ou na família, e sendo assim, as primeiras aprendizagens são extremamente importantes na vida da criança. O caminho a ser percorrido pode ser diferente, quando os pais ficam atentos ao que estão provocando em seus filhos, podendo prevenir situações angustiantes no futuro.

Os filhos são reflexos dos pais, visto que esses se apresentam como espelhos. Portanto, os pais devem atentar-se para uma auto-disciplina e auto-educação, o que por meio do relacionamento será transmitido aos filhos, gerando comportamentos mais adequados ao que a família entende como bom.

Ao educar, pode-se transmitir conceitos como: coragem, temperança, amor, tolerância, humildade, humor, simplicidade, pureza, doçura, felicidade, prazer, dor, justiça, liberdade, paixão, raiva, inveja, ciúme e outros, que fazem parte dos pensamentos e sentimentos humanos. Diminuindo ou erradicando a idéia de que os filhos agem não só da forma que querem, mas principalmente, da forma que aprenderam.  Pensando desta maneira, encontramos a possibilidade de mudanças, e a partir daí, novas aprendizagens podem surgir, ressignificando as antigas, proporcionando mais liberdade e felicidade para a criança.

Outro ponto importante é mostrar a essa criança o quanto ela é capaz. O quanto pode e conseguira resolver tarefas. Crianças com auto-estima, vistas de forma positiva, sentem-se capazes, apresentam confiança em si mesmas, e conseguem estabelecer metas e objetivos elevados, esforçando-se para atingi-los; assim como, conseguem enfrentar com mais tranqüilidade os aspectos difíceis da vida.

Referências Bibliográfic

FABER, A. e MAZLISH, E. Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar. São Paulo, Summus Editorial, 2003.

ROUSSEAU, J. – J. Emílio ou da Educação. São Paulo, Editora Martins Fontes, 1999.

SATIR, V. Contatos com tato. São Paulo, Editora Gente, 2000.

Texto publicado na Revista Direcional Escolas em janeiro de 2006 – Edição 12.

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